Post do Leitor #003| Um certo domingo de páscoa

6.4.12 |


É o ano de 2000. São seis horas da manhã e estamos, eu, meu marido e filhos, indo para o culto de Ressurreição na Igreja Metodista Central de Belo Horizonte. Confesso que pensava comigo mesma, sonolenta, que ideia teria sido esta do Pr. Moisés de celebrar um culto a esta hora, em pleno domingo de Páscoa... vontade de estar na cama...

Minhas filhas se amontoam no banco de trás do Fiat apertadinho, caladas... isto é raro... acho que ainda não acordaram direito...
O carro pára em um sinal de trânsito e olho através da janela de vidros fechados, o rosto do menino, que atravessa correndo a rua e vai para o lado do motorista.


- “Moço, me dá um trocado”?

Maltrapilho, descalço e tiritante, apesar de ainda ser outono, ele estende uma mão pequenina e suja na direção do meu marido, que está na direção.

Deparo-me com dois olhos, negros como jabuticaba, e me surpreendo com o sorriso de dentes alvos na boquinha arreganhada de orelha a orelha. O rostinho me sorri, mas os olhos são tão tristes!

Meu marido, ainda bocejando, abre a carteira, tira uma nota de R$5,00 (não tinha menor) e a coloca na mãozinha estendida...

O sorriso se abre ainda mais, pelo valor da nota:
- “Brigado moço... Deus lhe pague... agora vô podê comprá pão prus meus irmão”.

O sinal se abre... meu marido dá partida no carro. E eu, continuo com o rosto colado no vidro da janela, olhando o vulto magro do garoto ficando cada vez mais longe.

- “Quantos anos ele tem?” – pergunto a mim mesma – “Oito, nove?” O olhar, era de uma pessoa velha.

Penso no meu café da manhã, tomado antes de sair, composto de presunto, queijo, pão quentinho, geléia, fruta e leite integral. Penso no colégio pago dos meus filhos, em minha casa sem luxo, mas confortável, em minhas roupas adequadas para a estação. Penso em minha família que se reuniria à hora do almoço, certamente também farto, acompanhado de suco ou refrigerante e sobremesa...e nos ovos de Páscoa que os esperam na casa da vovó...

Penso na minha infância. No Deus da bíblia, que me foi apresentado por minha mãe, católica praticante, que lia os salmos e rezava comigo ao pé de minha cama macia e quentinha... Lembro que ela sempre dizia pra pedirmos ao “Anjo da Guarda” que cuidasse de todas as criancinhas...

Penso na minha fé de hoje, no convívio com os irmãos da Igreja, no meu ministério como Teóloga e pastora Metodista.

Penso no meu compromisso com Jesus e em como Ele disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque das tais é o Reino dos Céus.”
Vendo o vulto do garoto finalmente desaparecer, volto meus olhos para o alto e a vergonha por ser tão impotente me atinge como uma bofetada... Elevo a Deus uma oração por aquele menino e por todas as crianças carentes do nosso Brasil que deveriam, àquela hora da manhã, estar no aconchego de seus lares, cercadas de amor e pão.

E à noite, sei que vou sonhar com uns dentinhos claros (como podem ser tão alvos se não recebem cuidados?) brilhando num céu tão negro como os olhos do menino...
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Bom, amados... Tentei escrever um texto novo sobre a Páscoa... não consegui... 

Porque, apesar da minha alegria real por meu Senhor ressuscitado, não me posso calar diante do que vejo, diariamente, à minha volta... Não me posso calar diante da miséria, da fome, da desesperança, do desamparo, do descaso, do desamor...

Não me posso calar, sendo cristã, diante de tantos valores deturpados, de tanta ganância, da total inversão da pregação bíblica.... não me posso calar diante do Cristo crucificado (por nós!) que me grita nos rostos de tantas crianças abandonadas, de tantos velhos desprezados, de tantos miseráveis, de tantos excluídos.

Não posso, pois, celebrar a Páscoa, quando o Cristo vivo, símbolo de vitória sobre a opressão e de esperança de vida abundante, não se faz presente na vida do meu irmão, embora faça toda a diferença no meu coração. Sim... doze anos se passaram desde a data do texto que escrevi... e tudo, infelizmente, continua exatamente igual.

E eu não posso celebrar a Páscoa, a “saída do Egito”, da terra de servidão, quando o meu irmão continua escravo da miséria e nós somos coniventes com isto...

Indiferentemente, comemos o nosso chocolate, enquanto crianças reviram latas de lixo, enquanto gente se preocupa mais com cachorros e gatos...Nós, seres humanos, é que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, somos coroa da Sua criação.

Que Cristo me perdoe, nos perdoe, a omissão, a falta de paciência, a falta de interesse com os Seus pequeninos, por fecharmos a eles as portas de nossas casas e de nossos corações. Afinal de contas, é muito mais fácil, dá muito menos trabalho cuidar de um animalzinho de estimação. Eles nos abanam o rabo e nos agradecem, são fiéis e carinhosos... e as crianças e adolescentes rebeldes talvez vão nos decepcionar, nos magoar, nos causar muitos problemas. Mas foi por elas, pelas PESSOAS – não pelos animais - que Jesus morreu naquela cruz! São elas, as PESSOAS, que receberam d’Ele o olhar de compaixão e a promessa de salvação. Foi a elas, às pessoas, ao nosso próximo, que o Senhor ORDENOU amar como a nós mesmos... ainda que elas não mereçam...

Portanto, neste ano, embora O saiba vivo, embora O tenha como Senhor e Rei, não tenho nenhuma vontade de celebrar a Páscoa. Vou recolher-me ao meu quarto e chorar... e, tenho certeza, Ele chorará comigo, por ver na Terra tanta inversão de valores, tanta opressão, tanta futilidade e tanta falta de amor.

Soli Deo Gloria!

BIO: Pra. Terezinha de Lisieux

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