Gosto ou Falta de Opção?

2.2.12 |


"Gosto não se discute”... essa expressão poderia fazer sentido há uns 25 anos, quando ainda se preservava a criatividade musical e, depois de examinar cada manifestação artística, o ouvinte poderia afirmar: “não gosto disso” ou “gosto daquilo”. Neste texto, tratarei de questões históricas referentes à música brasileira, e arte no geral, e provarei que, hoje, gosto se discute sim!

A história da música “popular” brasileira, didaticamente, começa a tomar forma no “Maxixe” do final do século XIX, posteriormente se consolidando no “Choro” e no “Samba”. Com o passar dos anos, especificamente a década de 50, é fortemente influenciada pelo “Jazz norte americano” e por músicos brasileiros mais sofisticados como, por exemplo, “Johnny Alf”. Foi nessa década que nasceu a “Bossa Nova”; apesar de tentativas anteriores de Heitor Villa Lobos e Carlos Gomes de mostrar as caras do Brasil para o exterior, através de suas respectivas músicas, pode-se afirmar que foi a Bossa Nova que protagonizou melhor esse papel.

A Bossa Nova foi um movimento extremamente intelectual e popular ao mesmo tempo. Seus dois maiores expoentes foram Tom Jobim e João Gilberto. Tom, era uma mistura de complexidade e simplicidade; compôs obras que podem ser executadas pela melhor orquestra do mundo, como também pode ser cantarolada por qualquer leigo em música. João Gilberto foi o maior revolucionário da música brasileira dessa época, pois impôs uma assinatura com o seu violão e seu canto, quase que “falado”, que é reconhecido até hoje e se tornou marca registrada da Bossa Nova.

Uma parte dos músicos que participaram desse movimento, junto com outros, fortemente influenciados pelo rock and roll, e o reggae de “Bob Marley”, rompem com o mesmo, dando um pontapé inicial em um novo estilo, conhecido como “Tropicália”. Os músicos tropicalistas queriam romper com uma espécie de academicismo que a Bossa Nova havia estabelecido, pregavam a liberdade de expressão artística, refletida em suas composições, na maneira de se vestir e na performance em geral.

Talvez você esteja se perguntando: "O que isso tem a ver com gosto?" Fiz um breve panorama da nossa música popular até chegar à Bossa Nova e, posteriormente, ao Tropicalismo. Dei ênfase aos dois últimos pois, a partir de agora, passo a justificar a questão do gosto, através dos mesmos. Pessoalmente, eu cheguei à conclusão que gosto da Bossa Nova como música e nem tanto do Tropicalismo, porém, mesmo não gostando, respeito muito este último como movimento artístico musical e sei de sua importância para a música brasileira.

Pense no que vai ler agora: “Nem tudo que é belo é bom, nem tudo que é feio é ruim”. Em arte, esses adjetivos não andam sempre juntos, necessariamente; um artista pode compor sua obra usando técnicas que a torne “bela”, ou propositalmente “feia”. E é basicamente isso o que acontece entre a Bossa Nova e o Tropicalismo. Na Bossa Nova é tudo muito “certinho”, as letras das canções, em sua maioria, são refinadíssimas, muitas vezes fugindo do nível “popular”. Já a Tropicália é o inverso disso; ela veio para romper com o “banquinho e o violão”. Então é evidente que, em um primeiro momento, ela aparenta ser “feia”, mas muito rica! Ter a consciência do belo e do feio na arte é libertador, pois você passa a julgar as manifestações com outros olhos, ler nas entrelinhas. Por isso que, dessa forma, gosto não se discute, pois algo que é belo para mim, pode ser feio para você, ou vice-versa, porém, a importância desse “algo” para a sociedade, a sua função, o seu propósito, é imutável para qualquer pessoa.

Quer outro exemplo? A obra de ‘”da Vinci”, a famosa “Mona lisa”.
Mona Lisa - Da Vinci
Pessoalmente, não vejo beleza nela. Pra mim, não passa de uma mulher olhando para você com os braços cruzados. Não seria o quadro que eu compraria. Mas é exatamente o fato de ser apenas uma mulher com os braços cruzados, olhando para você, que a fez tão especial. Ela é um retrato do humanismo, do renascimento, e mostra os valores que perpassam sua sociedade, em que o homem volta a ser o centro do pensamento, por isso a considero como uma obra-prima de "Da Vinci", mesmo não a achando bela.

Voltando à música, vamos dar um salto para os anos 90, década em que os produtores musicais começam a tomar conta do negócio. É nessa época que a criatividade artística começa a ser desvalorizada, no Brasil; isso é um absurdo, pois, em um país onde a principal característica é a enorme variedade de culturas, a criatividade é o cerne. As grandes gravadoras começaram a lucrar muito com os “músicos brasileiros”, a máquina foi crescendo, e, quanto mais cresce mais se precisa de dinheiro. O foco da produção artística musical deixa de ser a criatividade do artista, deixa de ser a arte e passa a ser o entretenimento, que gera lucros. Dessa forma, é a maquina produtiva que impõe o seu gosto; se hoje você escuta o que está na mídia, não é por que aprendeu a gostar, é porque o obrigaram a gostar.

Se pararmos para lembrar, vamos nos dar conta de que, a partir da década em questão, surgiram várias febres musicais no país, que sumiram de repente. São pequenos formatos musicais, confeccionados pelos produtores e não pelos artistas, que, em parceria com a mídia, ditam o que vai vender ou não, ditam o que o “povo” vai escutar ou não, pois o mesmo não tem escolha: escuta aquilo que é dado. E, dessa forma, a cultura artística musical do Brasil vai decaindo, obrigando a ”massa” conviver com “axé”, “sertanejo universitário”, “pagode”, “funk carioca”, entre outros; logicamente, há as raridades de exceções que podem ter algum significado proveitoso, mas são raridades mesmo! São coisas que não fazem pensar, coisas fáceis de ouvir, coisas que cauterizam o senso crítico.

E a música “Gospel Brasileira” está fora dessa sujeira? Ai, ai... Arrisco-me a dizer que é a mais envolvida nessa vergonha toda. Quer um exemplo? Eu sou nascido em berço cristão, ouço músicas cristãs desde minha primeira infância e, até os meus 15 anos, aproximadamente, eu nunca sequer tinha ouvido a palavra “Shekhinah” na vida; e, de uns anos pra cá, tudo quanto é disco evangélico tem que ter essa palavra. Agora, não venha me dizer que os compositores cristãos atuais estão sensibilizados com a “Glória de Deus” e, por isso, cantam essa “febre”. É óbvio que, depois do sucesso do hit “Derrama tua Shekhinah”, do PopStar do momento, “Fernandinho”, ter vendido muito, todo mundo vai gravar isso.

Outro exemplo: a gravadora gospel “MK” tinha o costume de gravar coletâneas de canções “poplove”. Quem não se lembra daqueles discos ridículos, “Amo Você”? A gravadora pegava seus artistas mais rentáveis e os obrigavam a criar canções desse cunho. Lembro-me da banda “Oficina G3” gravar, uma ou duas vezes, para essa coletânea, até o momento em que eles dependiam da gravadora; hoje em dia, como eles não são macacos de laboratório, pararam de participar dessa vergonha. Comece a discutir o seu gosto, pois, se você se expõe aos bombardeios da mídia, você deve ter um grau de infecção desse vírus .

Espero que com isso, você, brasileiro, reflita um pouco, pois a música brasileira, “Secular” ou “Gospel”, é riquíssima até hoje, mas, infelizmente, vive à margem da mídia. O mundo inteiro reconhece os grandes nomes da nossa música, só os brasileiros que não! Invista tempo em escutá-los; vá ao teatro assisti-los; e, como diria o mestre Gilberto Gil: “Procure saber”.


Antes a morte da fome da comida do que a morte da falta de informação” (Tom Zé)



Vinícius Rodrigues

Vinícius Rodrigues

Músico, guitarrista/violonista. Licenciando em Música. Maníaco por Jazz e música brasileira.

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2 comentários

Luiza

Voltando a discussão da Débora sobre a Sheiknah, acho que um fator que tem bastante relevância e que não foi mencionado, é que o nome 'Sheiknah' se refere a uma deusa e não a gloria de Deus.

Já tinha ouvido falar nisso antes, então resolvi pesquisar e descobri um site que fornece argumentações a esse respeito: http://www.previnasedamarca.com/arquivo.php?recebe=materia/judaismo/05/05.html

O texto fala que Sheiknah é uma deusa da mitologia hebraica, que foi gerada a partir da relação sexual de deus com ele mesmo (visto que na mitologia, deus é um ser andrógino)... acho que vale a pena conferir o texto completo. Achei bastante esclarecedor!

Luiz Fernando Pimentel

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